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                   TRANSFORMAO  PARTE 2

     Voc estaria disposto a deixar sua famlia para ir defrontar-se com o perigo
absoluto e fulminante numa misso ordenada pelo Senhor?

     Na primeira parte da aventura, Alan Xavier, se disps sair de sua
casa e encontrar Carlos. Porm, acabou se envolvendo numa srie de
acontecimentos que fizera de si um dos principais responsveis pela
morte de um policial. Ligado a Carlos por uma algema, fugindo da
polcia e dos pelos membros da impiedosa quadrilha de Vip, ele tenta ao
mesmo tempo pregar a Palavra de Deus para o traficante.
     Todos os caminhos tortuosos levaram Carlos e Alan a um
desmanche de carros onde vive um ex-patro e agora amigo de Carlos,
Nick Gradinno. Sempre desconfiados de Alan, Carlos e Nick planejam
um contra-ataque  quadrilha e o resgate de Nicole.
     O momento o confronto chegou e as indagaes continuam:
     O que ir acontecer?
     Carlos e Alan sairo ilesos desse confronto?
     Alan conseguir alcanar o corao de Carlos e faze-lo entender que
Deus o ama?
     E quanto a Carlos? Conseguir ele resgatar sua noiva e derrotar
toda a quadrilha?
     E o grande segredo da Quadrilha? Quem ser o misterioso Vip?

                                 Naasom A. Sousa




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                          Transformao - Naasom A. Sousa




TRANSFORMAO
 Naasom A. Sousa


           PARTE 2




        Edio Letras Santas
 Copyright - 2001 by Naasom A. Sousa
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         Transformao - Naasom A. Sousa




                    Parte Dois




REENCONTROS




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                                        Captulo 18



M   ais uma vez estavam diante da placa que indicava os nomes das
    ruas Treze e Clintel; a mesma esquina onde todo aquele pesadelo
havia se dado incio. Carlos olhou ao redor e observou os prdios
escuros e a rua deserta, mais uma vez no haveria testemunhas para o
que iria acontecer dali a alguns minutos. Olhou para Alan e notou seus
olhos castanhos voltados para baixo como se houvesse uma edio do
jornal do dia jogado no cho. Aquilo era estranho. Aquela no era hora
para entrar em transe e pensar em coisas banais.
     Visualizou o relgio e contou as horas: 24h e 20mim. Devem estar a
caminho, pensou Carlos. Talvez o fim esteja a caminho.

                               &&&

      Alan pensava em Melina e seus trs filhos. Com os olhos voltados
para o cho, indagava-se se voltaria a v-los novamente, e suplicava ao
Senhor que permitisse que isso acontecesse. Sabia que o improvvel
poderia acontecer e a qualquer momento.
      Fez uma orao rpida, confessando ao Senhor que se encontrava
aflito, mas que, se era do interesse do Deus Altssimo que passasse por
tudo aquilo, iria passar sem reclamar. Entretanto, lembrou-se de que
Carlos no havia se convencido de que sua vida nada era sem a



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interveno de Deus, ento pediu ao Senhor mais uma chance de poder
continuar a falar da Santa Palavra a ele.
      o que te peo, Senhor, em nome de Jesus. Amm.

                                &&&

     A porta agora estava totalmente aberta e Caroline podia ver o
grande vulto segurando a maaneta. Esforou-se para discernir bem os
traos da pessoa, mas a escassa luz que o abajur produzia no permitia
que isso acontecesse.
     Caroline olhou ao redor, procurando algo para que pudesse
empunhar e se defender, mas no enxergou nada. Era mesmo o fim,
pensou.
     A pessoa adentrou o quarto e caminhou em sua direo e na de
Pablo. A respirao de Caroline parecia, de uma hora para outra, ficar
mais difcil do que nunca. O vulto parou e, parecendo fit-la, colocou a
mo no bolso. A reprter pensou que provavelmente tiraria dali uma
arma. Ela tentou puxar o ar para dentro dos pulmes. Era-lhe quase
impossvel. Foi ento que, como se no tivesse outra coisa a fazer a no
ser baixar a guarda, perguntou com a voz fraca:
     -- Est aqui para mat-lo, no ?
     A pessoa permaneceu firme, mas pareceu surpreso no tom de sua
voz quando disse:
     -- Mat-lo? Por que eu faria isso, Sta. Lima?
     Caroline foi surpreendida. Era uma voz masculina conhecida aos
seus ouvidos. A pessoa permaneceu onde estava, e ela imediatamente
andou at o abajur e fez com que a luz atingisse o rosto do estranho, e
enfim pde ver quem ele era.
     -- Dr. Stone... ?
     -- Sta. Lima.
     -- O que... o que o senhor est fazendo aqui?
     -- Acho que este  o hospital onde trabalho e esta  a hora de dar o
medicamento do meu paciente, alis, j est passando da hora. Mas...
voc parecia assustada.
     Caroline enrubesceu envergonhada.
     -- Desculpe-me, Dr. Stone, mas... mas eu pensei, de uma hora para
a outra, que o senhor fosse algum vindo para matar Pablo. Realmente
me assustei. Eu... estou com medo que algum contratado por aquela
maldita quadrilha entre aqui e termine o servio que ficou incompleto...
     O Dr. Stone interrompeu-a:


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     -- Mas graas  sua reportagem, a vida dele est mantida em
segredo.
     -- At quando, doutor? At quando? Quero dizer... quando
descobrirem, s saberemos que isso aconteceu quando encontrarmos
Pablo morto, e no quero que isso acontea, me entende?
     O mdico balanou a cabea em compreenso.
     -- Ento, o que mais sugere? -- perguntou.
     Caroline fez uma meno negativa e balbuciou:
     -- Eu no sei. Vivo imaginando algum entrando aqui neste quarto
e matando-o. Sei que as pessoas que entram aqui foram escolhidas pelo
senhor, mas, e se entrar algum por engano? Meu Deus! Ir se espalhar a
notcia por toda a cidade e cair nos ouvidos dos traficantes e... Pablo
morrer!
     O Dr. Stone segurou os ombros de Caroline.
     -- Acalme-se, Sta. Lima. Eu entendo o tamanho do perigo que a
questo envolve, mas...
     -- Nada de mais, doutor. Temos que tirar Pablo daqui o mais
depressa possvel, antes que acontea o pior.
     -- Sta. Lima...
     Caroline meneou a cabea e rogou:
     -- Por favor!
     O doutor ficou em silncio por alguns segundos fitando os olhos
verdes de Caroline, suspirou e falou devagar:
     -- Como fazer isso? Como tir-lo daqui?
     A reprter pressionou os lbios.
     -- No sei ao certo, mas temos que arranjar um meio.
     -- Posso perder meu emprego por isso.
     -- No se preocupe, dou-me diretamente com o pblico. Se o
senhor for despedido, imediatamente ter outro emprego, e lhe dou
minha palavra que ser um muito melhor do que j tem.
     O Dr. Stone sorriu e disse:
     -- Bem, ento se for assim, acho que j tenho uma soluo para o
problema.  um pouco arriscado, mas acho que pode dar certo.

                               &&&

    O nervosismo, a ansiedade, a angstia e a impacincia contribuam
para que o sangue se esvasse das mos de Carlos, deixando as palmas
esbranquiadas. Ele caminhava desassossegadamente de um lado para o



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outro e Alan perguntou-se quanto tempo levaria para o cho comear a
afundar com suas passadas.
     Carlos consultou seu relgio novamente, concluindo que Vip j
estava atrasado dez minutos. Indagou a si prprio como Nick Gradinno
estaria numa hora daquelas, pois ele mesmo se encontrava com os
nervos num verdadeiro turbilho. Tentava permanecer calmo, mas isso
lhe era quase impossvel.
     Ligeiramente, viu luzes despontar ao longe, dobrando a esquina,
que foi se tornando mais forte  medida em que se aproximava. As luzes
eram projetadas pelos faris de veculos -- dois, para ser mais exato --
que dificultava a viso dos dois homens algemados lutando para
enxergar algo em meio  ofuscante claridade.
     Os carros pararam  quinze metros de Carlos e Alan. Lucas foi o
primeiro a descer de um dos veculos e, como se tivesse sido tudo
ensaiado antes, todos os outros homens saram ao mesmo tempo. Carlos
imediatamente reconheceu Tito e Bino entre eles, e alguns outros eram
desconhecidos. Mas a pea principal do xadrez no se encontrava sobre
o tabuleiro.
     -- Vip no veio? -- indagou Carlos.
     Lucas, o de maior autoridade entre os que estavam do outro lado,
falou:
     -- Infelizmente no. Voc sabe que ele  um homem de negcios e,
como tal, vive sempre muito ocupado. Alm do mais, o que voc quer
no  ele e sim uma outra pessoa, estou certo?
     Carlos concordou com a cabea.
     -- Voc est coberto de razo. Mas h um pequeno problema,
Lucas. No estou vendo a pessoa que procuro.
     Com um olhar de dar frio na espinha, Lucas respondeu:
     -- No se preocupe, meu caro. Ela est em boas mos. Logo voc a
ver.
     -- Devo dizer que no confio em voc, Lucas. Alis, em nenhum de
vocs. J confiei uma vez e o preo que paguei por isso foi uma arma
apontada para a minha cabea, toda a polcia dessa cidade ao meu
encalo, e o pior de tudo, minha noiva raptada e ameaada de morte.
No serei to tolo a ponto de deixar que faam isso comigo de novo. Por
isso,  melhor no arriscar e fazer tudo de acordo com o combinado...
     -- J sei -- interrompeu Lucas. -- Voc agora ir dizer: Ou ento...
     Carlos abriu um sorriso torto.
     -- Voc sabe das coisas, Lucas, devo admitir isso. A verdade  que
se no fizerem o combinado, tudo estar acabado para a quadrilha dos


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milhes. O que quero dizer  que a fita cair em mos erradas... -- ele
pensou rpido -- ou seria nas mos certas? Bem, o importante  que
vocs estaro no fundo do abismo.
     -- Isso  muito engenhoso -- murmurou Lucas.
     -- Cara, ser que no conseguem compreender?! -- exclamou
Carlos. -- Tudo o que eu quero  dar o fora desta cidade miservel com
a mulher que amo, droga! Isso  pedir de mais? Vocs j fizeram o que
queriam. Acabaram com os dois tiras e a culpa caiu em cima de mim! O
que querem agora?
     Carlos fixou a expresso indistinta do rosto de Lucas e sentiu um
imenso impulso de cort-lo em pedacinhos. Ele no dava a mnima para
o que sentia e nem para o que acabara de falar.
     Desgraado!
      Voltou-se rapidamente para Alan. O que estaria se passando em
seu pensamento? Estaria esperando algum sinal de Lucas para mostrar
seu verdadeiro carter? No esperaria at que isso viesse acontecer.
     -- Muito bem, vamos logo acabar com isso -- falou Carlos. --
Quero v-la agora.
     Lucas hesitou por um momento, at que disse com voz grave:
     -- Primeiro quero saber da fita. Ela est com voc?
     -- Pode ter certeza que sim.
     -- Mostre.
     Carlos permaneceu imvel por alguns segundos, perguntando-se se
aquilo seria algo prudente a se fazer. Mas ento se conscientizou de que
nada do que estava acontecendo ali o era. Meteu lentamente a mo no
bolso do palet e tirou a fita k7, pondo  vista de Lucas.
     -- Agora a garota -- esbravejou o homem algemado.
     Lucas fez um sinal com a cabea para um de seus homens atrs de
si, que se dirigiu at a traseira do carro em que viera e abriu o porta-
malas. Carlos pde ver o homem retirar a moa de dentro do veculo e
lamentou. Ela se encontrava com um capuz preto cobrindo-lhe o rosto e
os pulsos presos, amarrados para trs. Podia-se ouvir seus gemidos e
concluiu que tambm estava amordaada e, alm disso -- o pior de tudo
-- estava visivelmente conturbada e assustada.
     O corao do noivo fugitivo palpitava descompassado. Era
horrivelmente doloroso e angustiante v-la naquele estado, sendo
transportada como uma carga qualquer, amarrada -- ou melhor --
aprisionada sem ter culpa alguma. Carlos cerrava os punhos diante do
sofrimento que se acumulava dentro do seu ser.
     O homem caminhou com Nicole at ladear Lucas, e este ordenou:


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     -- Bino, pegue a fita.
     Carlos, ao ouvir tal ordem, no deixou que o subordinado se
movesse um s centmetro  frente e gritou com denodo:
     -- No! Primeiro a garota!
     Os olhos de Lucas se estreitaram.
     -- Por que isso, Carlos? Sabe que se eu quisesse fazer algo aos
dois... -- seu olhar se encontrou com o de Alan -- Alis, aos trs, j o
teria feito. Para lhe mostrar que o acordo no ser quebrado, faremos a
troca ao mesmo tempo.
     Alan fechou os olhos e iniciou uma breve orao, pois algo o tocava
por dentro. De alguma forma, parecia que o Senhor sussurrava-lhe e
indicava que tudo aquilo, de algum modo, estava terrivelmente errado.
     Bino tomou o brao de Nicole e levou-a na direo de Carlos. Para o
noivo, pareceu uma eternidade at que ela chegasse prximo a ele.
Porm, inconvenientemente, Bino se interps entre os dois, puxou um
pequeno walkman do bolso traseiro da cala e falou em tom forte:
     -- D-me a fita. Preciso test-la.
     Houve um momento de hesitao da parte de Carlos, mas a viso
de Nicole amordaada, encapuzada e amarrada amoleceu-lhe o ntimo.
Queria abra-la, libert-la o mais rpido possvel. Por fim, esticou o
brao e entregou a fita ao inimigo.
     Bino abriu o compartimento do pequeno aparelho destinado  fita,
introduziu-a e fechou-o logo a seguir. Pressionou o play e escutou o
contedo por um breve instante. Desligou e virou-se para Lucas. Fez um
meneio de cabea e foi retribudo por seu chefe com um movimento
semelhante. Virou-se outra vez para Carlos, fixou seus olhos e afastou-se
para o lado, abrindo caminho livre para que tomasse sua amada nos
braos.
     --  toda sua -- balbuciou o traficante, com um sorriso sarcstico
nos lbios.
     Com alguns passos  frente, Carlos tocou o brao de Nicole, ansioso
e um tanto nervoso.
     -- Voc est bem, meu amor?
     Ela no conseguia falar coisa alguma, apenas gemia.
     -- Espere, vou desamarr-la -- f-la virar e passou a trabalhar nos
ns dados nas cordas grossas. Alan permaneceu atrs dele, um tanto
apreensivo. Os olhos de Carlos se depararam com Bino a olh-los ainda
ao seu lado e anunciou: -- Pode dizer ao seu chefe para ficar tranqilo.
Dei minha palavra que ele nunca mais me ver e essa promessa ser
cumprida.


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     Bino apenas meneou a cabea e virou-se. Caminhou alguns passos e
subitamente parou. Olhou para Lucas e ento para o cho sob seus ps.
Disse:
     -- Eu sei que far isso, Carlos. Sei que nunca mais voltaremos a ver
voc outra vez... e estou incumbido de garantir isso!
     Um objeto surgiu na mo de Bino e ele o apontou para Carlos.
Numa frao de segundos o objeto pde ser visualizado. Era um
revolver de cano curto, calibre 38.
     Um tiro foi disparado e seguido de outro. O estampido que se
originou da arma de Bino pde ser confundido com o que surgiu da
mini-metralhadora de Nick Gradinno em cima dos prdio de
apartamentos acima deles. O peito de Bino se transformou em lquido
vermelho que se esvaa aos gales. Carlos foi jogado para trs junto com
Nicole pelo impacto da bala e Alan gritou, rogando por uma interveno
divina, levando as mos  cabea. Carlos sentiu o sangue no rosto e
contemplou seu palet banhado da mesma substncia, enquanto passou
os olhos por Bino e observou-o desvanecer ao cho, sem vida.
     Os tiros vindos de cima dos prdios foram direcionados
repentinamente a Lucas e aos demais traficantes j com suas armas em
punho, prontos para o ataque a Carlos e aqueles com quem estava.
Todos foram pegos desprevenidos e se abrigaram atrs dos carros e suas
portas.
     Alan aproximou-se de Carlos e tocou-lhe o corpo, sentindo o
sangue.
     -- Voc est ferido!
     -- No sei... -- Carlos se esforou com Nicole nos braos e sentou-
se. Tocou seu prprio corpo e no sentiu qualquer orifcio; a dor era
mnima. -- Acho que... -- olhou para Bino no cho e pensou que seu
tiro no o acertara, mas o sangue dele havia espirrado em seu corpo.
Grande Nick! Agradeceu.
     -- Tudo bem? -- indagou Alan.
     Carlos voltou os olhos para Nicole em seus braos, ainda amarrada.
Oh, querida! Seu olhar deparou-se com as roupas dela cobertas de
sangue, ento sentiu seu corpo sem movimento e, por fim, notou um
buraco no meio de seu corpo. Oh, no! Nicole... No!
     Os tiros continuavam explodindo. Alguns passavam zunindo nos
ouvidos de Alan, e este podia observar um outro traficante caindo no
cho, ensangentado, graas aos disparos da metralhadora de Nick.
Outro fora-da-lei comeava uma corrida na direo deles com uma arma
pesada na mo direita, pronta para diversos disparos.


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     Alan fitou Carlos ao seu lado, com a cabea baixa e olhos fechados.
No se mexia, no dava mais ateno ao que estava se passando ao seu
redor; ao perigo que corria; o campo de batalha em que estava metido.
Nada mais importava; de nada mais a vida adiantava. O amanh j no
existia sem Nicole.
     -- Carlos! -- chamava Alan. -- Carlos, vamos sair daqui!
     Seus ouvidos j no escutavam coisa alguma, sua boca j no
respondia nem falava nada. Sua vida havia se acabado no momento em
que viu a de sua amada acabada. Nicole estava morta e ele queria partir
com ela.




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                                        Captulo 19



O    quarto estava escuro e um pouco frio, por causa do vento que
    soprava l fora. Melina repousava deitada em sua cama, mas no
conseguia dormir. Algo afligia sua alma e apertava seu corao.
     A porta do aposento foi aberta e a sombra da pequena Jssica
apareceu por entre a minguada luz vinda da cozinha que sempre
passava s noites acesa. A menina adentrou o quarto e parou ao lado da
grande cama.
     Melina se sentou, sorriu para a filha e chamou-a para os seus
braos. A pequena menina literalmente pulou sobre a me.
     -- O que foi? -- perguntou Melina. -- no est conseguindo dormir,
minha lindinha?
     Em meio aos carinhos da me, Jssica suspirou com
descontentamento e respondeu:
     -- O sono no veio, mame. Acho que  porque o papai no orou
comigo nem me deu o beijinho de boa noite para eu conseguir dormir
direitinho.
     Melina abraou-a fortemente e beijou-a na testa.
     -- Oh, meu amor, seu pai fez uma pequena viagem, por isso no
estava aqui para orar com voc e nem lhe dar o seu beijinho de boa
noite. Mas eu posso fazer isso. Voc quer?
     Jssica olhou para suas pequenas mozinhas matraqueando com os
dedinhos, batendo uns nos outros.


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    -- No quero no, mame. Eu quero o papai -- voltou o olhar para
a me. -- Quando  que ele volta, mame? Estou com muita saudade!
Pelo menos ele est bem onde est, no ?
    Melina se deitou e puxou a filha para cima de si, o conchego do seu
corpo. Pensou por um momento e hesitou em falar algo.
    -- No se preocupe, filhinha -- falou ento. -- creio que ele est
bem, que logo estar aqui conosco e, principalmente, pertinho de voc
para orar e dar grandes beijos.
    A pequena menina apertou a me num abrao.
    -- Tomara que ele no demore a voltar -- torceu ela.
    Melina suspirou forte e sussurrou:
    -- Tomara mesmo, minha queridinha. Tomara que ele volte logo
para todos ns.

                                  &&&

     O traficante que corria na direo de Carlos, Alan e Nicole no teve
tempo para apontar a arma para eles e muito menos puxar o gatilho,
logo foi acertado pelas balas vindas de cima do prdio velho e cinzento
acima dele. Os homens de Lucas puseram-se a atirar para cima do
prdio, tentando eliminar o franco-atirador.
     Um grito foi ouvido e logo Alan viu outro traficante sendo jogado
no cho pela rajada de fogo da mini metralhadora de Nick Gradinno.
     Alan se voltou para Carlos e sacudiu-o.
     -- Carlos, desprenda-se desses seus pensamentos, por favor!
Estamos no meio de um campo de guerra e no podemos ficar aqui
parados, apenas esperando ser atingidos!
     Carlos parecia no escut-lo. Aparentava estar alheio ao mundo, e
s o que fazia era menear a cabea de um lado para o outro e balbuciar:
     -- No pode ser... No pode ser... No pode ser... Meu amor... me
leva com voc... -- ele passou a mo pela cabea encapuzada da moa
sem vida e comeou a desatar o n de uma fina corda envolta em seu
pescoo. Uma bala ricocheteou no asfalto ao lado dos trs, mas Carlos
nem se mexeu ou muito menos piscou. Continuou desamarrando a fina
corda, at que conseguiu. Respirou fundo antes de puxar o capuz. Puxou
o saco preto de veludo vagarosamente e fechou os olhos para no ver
imediatamente o rosto singelo de Nicole. Retirou o capuz, engoliu
amargamente um n imaginrio na garganta e abriu os olhos
lentamente, passando a ver o rosto do corpo em seus braos.
     Lucas gritou histericamente para dois dos seus homens:


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                                              Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Peguem o walkman! A fita est dentro! Vo! Vo!
     Os homens puseram-se a correr.
     Ver aquele rosto fez Carlos gemer. No era sua amada Nicole, mas
sim uma mulher muito parecida com ela. Uma dor repentina e estranha
de alvio misturado com uma ira avassaladora tomou conta se seu corpo
e o fez estremecer. Mais uma vez haviam-no enganado. Voltou os olhos
para Lucas e enxergou os dois subordinados se aproximando do corpo
de Bino por entre as balas que passavam por eles e chocavam-se contra o
asfalto.
     -- Mentirosos desgraados! -- gritou Carlos, que levou o brao
direito para trs e trouxe para frente  arma sete-meia-cinco automtica e,
como um relmpago, apontou para o par de bandidos j com o olho na
mira.
     Blam! Blam!
     Os tiros foram certeiros, um para cada homem. O primeiro caiu
para a direita com um buraco no peito, enquanto o outro se precipitou
para trs com uma mancha vermelha no pescoo.
     -- Luuuccaaaaaass!!!! -- o eco do grito de Carlos se espalhou por
todo o quarteiro e chamou a ateno de todos, mas no a de Nick
Gradinno que continuou atirando em todos os que estavam ao lado de
Lucas e acertou mais um. O tiroteio recomeou ainda mais intenso e
explosivo.
     Logo os tiras chegariam, pensou Carlos. Algum j deveria ter ligado
para a central, comunicando sobre a pequena guerra que acontecia ali.
     Ele puxou Alan e caminhou agachado at o corpo de Bino, pegou
nas mos o walkman e retirou a fita k7, colocando-a logo a seguir outra
vez no bolso do palet.
     Levantou os olhos e no mesmo instante se deparou com os de
Lucas, faiscando de pura clera e nas mos sustentava uma arma
apontada em sua direo. No havia mais nada que pudesse fazer para
salvar-se, sua vida estava nas mos do inimigo, concluiu. O fim.
     O pra-brisa do carro ao lado de Lucas explodiu em centenas de
minsculos pedaos com um tiro de Nick, mas isso no foi o bastante
para fazer com que Lucas se movesse um s centmetro ou com que
perdesse sua concentrao. O alvo era certo; uma interceptao agora era
impossvel; o impacto contra o corpo largo de Carlos era inevitvel.
Lucas abriu um leve sorriso de satisfao e prazer antes de apertar o
gatilho.
     O tiro foi disparado. -- Isso! -- disse Lucas ao mesmo tempo em
que a bala explodiu e zuniu ao sair do cano da arma.


                                    15
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     No mesmo segundo pde-se ouvir um grito: -- No! -- e o
inesperado aconteceu.
     Alan colocou, num pulo, o corpo  frente do corpo de Carlos e, por
conseqncia,      a    bala   perfurou-lhe     o    abdmen,       fazendo
instantaneamente jorrar sangue e encharcar sua camisa.
     -- Maldio! -- praguejou Lucas, desapontado. -- Quem  esse
maluco, afinal!?
     Carlos no acreditava no que seus olhos lhe revelavam. O pastor
havia salvo a sua vida. Alan caiu em seus braos, e ento pde sentir o
sangue quente em suas mos e notar o corpo daquele homem se
contorcer de dor.
     -- Pastor, o qu... -- no sabia o que pensar diante daquela atitude.
Voltou-se novamente para Lucas e viu-o mirando novamente em sua
direo. Ele dizia algo, ento Carlos leu os seus lbios: Desta vez voc no
escapa, miservel!
     Mais uma rajada foi disparada de cima do prdio de apartamentos e
mais um traficante foi acertado, despencou para o lado deu de encontro
com o corpo de Lucas, tirando sua concentrao e mira. Droga! -- gritou
o chefe.
     Foi tudo o que Carlos precisou. Posicionou a arma com os braos
firmes e abriu fogo contra Lucas e os demais adversrios. As balas se
chocaram na carroceria dos veculos, fazendo os bandidos abaixarem
suas cabeas para proteg-las.

                                    &&&

     Espanto! Melina despertou de seu sono alterada e sentou-se na
cama sentindo a respirao ofegante, o suor cobrindo-lhe o rosto e um
aperto impregnado no peito. Enxugou o suor da face com o cobertor e
um terrvel mal-estar tomou conta de seu corpo.
     -- Jesus... -- sussurrou ela, levando as mos  cabea -- o que est
acontecendo... ?
     Mas sabia muito bem o que acontecia. Sentia que alguma coisa
estava acontecendo com Alan. No sabia o qu e nem por qu estava
sentindo aquilo.
     De repente, sentiu uma pequena mo toc-la nas costas. Virou-se e
viu os olhos arredondados de Jssica a especular sua aparncia
visivelmente abalada.
     -- O que foi, mame? Est com dor de cabea?
     Melina tentou um sorriso.


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    -- S um pouquinho, meu amor, mas nada que possa preocupar.
    A menina olhava-a com ar de dvida. A me tentou se
desvencilhar:
    -- Volte a dormir, querida. Estou com um pouco de sede, vou at a
cozinha beber gua.
    -- Tambm quero um pouquinho -- alegrou-se a menina.
    -- Est bem, deite-se e me espere.
    Melina cruzou o corredor, passou pela sala de estar e entrou na
cozinha. Seguiu  geladeira e abriu-a, tomando na mo uma garrafa
cheia de gua. Voltou-se para o armrio e pegou um copo, comeou a
ench-lo.
    Subitamente, sentiu uma pontada aguda no fundo do corao e
uma sensao insuportvel de desespero tomou-lhe o ntimo por
completo. A garrafa se soltou de sua mo e espatifou-se ao se chocar
contra o piso, espalhando gua para todos os lados.
    Senhor Jesus... No!!

                                   &&&
     -- Melina... Melina... Melina...
     O nome saa dos lbios de Alan quase incompreensvel. O som era
spero e parecia ser pronunciado com algum esforo.
     Carlos ps a mo sobre o ferimento.
     -- Droga, temos que sair daqui e estancar esse sangue! -- apontou a
arma na direo de Lucas e tornou a atirar. Voltou o olhar para Alan. --
Vai ter que suportar a dor mais um pouco, pastor. Agenta a.
     Segurou Alan pelo tronco do corpo e com cuidado -- mas nem
tanto assim -- colocou-o sobre o ombro e correu para o lado oposto dos
traficantes.

                                  &&&

      Nick Gradinno estava adorando aquela ao. H muito tempo no
puxava um gatilho com tanta gana e segurana. J havia acertado um
bom nmero de bandidos l embaixo e, se dependesse dele, nenhum
escaparia da mira de sua mini metralhadora. Se no fossem aqueles carros,
j estariam todos no cho! Protestou.
      Havia visto atirarem em Nicole e depois descoberto que a garota
no era ela e sim outra mulher parecida. Isso o deixara irado deveras e a
Carlos mais ainda.



                                   17
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      Preocupava-se no momento somente em dar cobertura a Carlos,
mas por um segundo voltou o olhar para ele e viu-o colocar o pastor em
seu ombro e sair correndo. Por que estava fazendo isso agora? Resolveu
em se preocupar apenas em derrubar os bandidos ou pelo menos faz-
los ficar abaixados para que Carlos sasse dali.

                                  &&&

     Nick estava fazendo um timo trabalho, pensou Carlos, mas mesmo
assim ainda sentia as balas ricochetearem no asfalto a centmetros dos
seus ps e passarem zunindo perto do seu corpo. Sentia o peso de Alan
empurrar-lhe para baixo, porm, seu instinto o impulsionava a sair dali
o mais rpido possvel.
     Ao longe, ouviu Lucas gritar para os outros: -- Droga! Ele ainda
continua com a fita! -- depois chamou: -- Tito, Celino! -- No o viu
junto com os dois homens entrarem num dos carros e dar a partida.
Apenas ouviu primeiro um dos vidros do veculo sendo estilhaado por
uma dezena de balas.
     -- Cuidem rpido desse atirador miservel ou todos morreremos!
-- berrou Lucas para os demais traficantes.
     Os movimentos das pernas de Carlos eram acelerados e contnuos.
Ele chegou  esquina e dobrou, conduzindo o corpo mole de Alan por
uma nova rua.
     Lucas, ao volante, passou a primeira marcha e acelerou. O carro
jogou fumaa dos pneus para trs e correu adiante.
     -- No vai me escapar, seu cretino, no vai me escapar mesmo! --
resmungou ele.
     A terceira marcha j estava engatada e Lucas visualizava na mente a
manobra para dobrar a esquina sem desacelerar. Mas, subitamente, a
inteno foi destruda, pois os pneus explodiram por uma bala
disparada pela mini metralhadora nas mos de Nick e o carro foi de
encontro  parede de um pequeno edifcio de esquina.
     Carlos olhou para trs e agradeceu a Nick Gradinno novamente
pela ajuda -- ou melhor, por ter salvado sua vida. Ele desviou em outra
rua e sumiu da vista de Lucas e seus subordinados.

                                  &&&




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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



     O sangue ainda escorria e isso preocupava Carlos, que observava
Alan se contorcer e franzir o cenho constantemente por conseqncia da
dor.
     Havia corrido mais alguns quarteires e entrado em um beco
escuro, onde se encontravam at agora. H momentos atrs, viu um
carro passar em frente ao beco e imaginou ter visto Lucas ao volante
procurando-os. Ficaram escondidos atrs de umas poucas latas de lixo e
passaram algum tempo atentos a qualquer sombra que deslizasse pela
entrada do beco.
     Repentinamente, Alan soltou um gemido lgubre e abafado. Carlos
notou o sangue ainda se esvaindo do ferimento no corpo do servo de
Deus.
     -- Voc est perdendo muito sangue... -- ele suspirou fundo, sem
saber muito que fazer quela hora. Ento se lembrou de algo. Ps a mo
no bolso e puxou um leno cinza. Dobrou-o e pressionou-o contra o
orifcio, na inteno de amenizar o sangramento. Voltou o olhar para a
entrada do beco e replicou complacentemente consigo mesmo: -- Temos
que ficar por aqui mais um pouco. Lucas ainda pode estar por perto.

                                  &&&

     J se havia passado mais de meia hora e ainda se encontravam
naquele beco, protegidos pelas latas de lixo.
     -- Melina... Melina... Meli... na... -- sussurrava Alan, a voz
sufocada, quase inconsciente.
     Carlos chegou-se mais perto dos lbios de Alan e reconheceu o
nome; o mesmo que dissera ao receber o tiro. Seu olhar encontrou a
aliana no dedo anelar da mo esquerda e indagou:
     -- Melina... Ela  a sua esposa? Quer que lhe leve at ela?
     Com extrema e visvel dificuldade, Alan balbuciou:
     -- Rua... Josu... Golfinho... -- tossiu e repetiu na esperana que
sua voz sasse mais compreensvel: -- Josu Golfinho... nmero 308...
Leve-me at... l.
     Alan silenciou e Carlos ficou a pensar com os olhos fixados no
ferido.
     Josu Golfinho, nmero 308. E agora... aonde  que eu vou parar?




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                                            Transformao - Naasom A. Sousa




                                         Captulo 20



D   espertou do sono e entreabriu os olhos ainda meio desligado de tudo
     sua volta. Foi ento, que aps alguns segundos, teve o
reconhecimento de onde estava: na cama da advogada Sandra Evans,
deitado com a prpria ao seu lado. Levou os dedos  fronte. Uma
tremenda dor de cabea surrava-lhe os miolos enquanto uma nusea
embrulhava suas entranhas. Fez uma careta retorcida pela dor e mexeu-
se para alivi-la, mas tudo o que conseguiu foi acordar Sandra.
     Ela abanou a cabea tentando voltar ao mundo dos lcidos e ergueu
suas delicadas sobrancelhas.
     -- O que foi? -- perguntou.
     Axel tentou dar uma impresso de que estava tudo bem.
     -- Nada. Desculpe-me se a acordei.
     -- No tem problema. Alguma coisa o preocupa?
     Ele fez um sinal negativo.
     -- Acordei um pouco antes de voc, e... -- apontou para o relgio
em seu pulso -- notei que j est bem tarde, quero dizer...  hora de ir.
     Sandra baixou o olhar e depois o direcionou ao rosto do agente
policial com um ar de necessidade e plena dependncia.
     -- Por favor... fique o resto da noite comigo... Eu preciso de voc.
     Axel pde ver nos olhos da linda mulher um brilho arrebatador e,
em seu rosto, traos de quem suplicava por uma anuio.



                                   20
                                            Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Perdoe-me, mas no posso. Tenho que voltar para casa e ver
como Leonardo est. Tina fez um jantar e... bem, meu filho contava com
minha presena. Acho que ele ficou bem desapontado.
     -- Ento temo que tenho culpa no cartrio, j que a sua ausncia l
foi causada pela sua presena aqui.
     -- Ah, no, por favor. No se culpe por isso. Eu quis vir e, se fiz
isso,  porque tinha necessidade de ficar com voc.
     -- Mesmo? No est falando isso apenas para me deixar tranqila?
     -- Claro que no.
     Um leve sorriso despontou nos lbios de Sandra, ento sumiu
subitamente.
     -- Tem certeza mesmo que no quer ficar?
     Axel tocou o rosto liso e macio da mulher.
     -- Voc sabe que queria ficar e sabe tambm que no posso.
Realmente eu preciso ir.
     Ela tornou a baixar a cabea.
     -- Eu compreendo -- disse.
     O agente se levantou e comeou a se vestir, enquanto Sandra ficava
a observ-lo deitada na cama. Ao acabar de amarrar os cadaros dos
sapatos, ele voltou o olhar para ela e indagou:
     -- Quando voltaremos a nos ver?
     Sandra olhou para cima, dando a impresso de que estava
pensando concentradamente no assunto. Os dois riram.
     -- No se preocupe -- falou ela --, eu mando um recado pelo seu
pager assim que eu tiver um tempo livre novamente.
     -- Tudo bem -- concordou ele sorrindo. -- Me acompanha at a
porta?
     -- Claro.
     Sandra ergue-se da cama e tomou o brao de Axel, encaminhando-o
 porta.
     -- Promete que vai pensar em mim? -- perguntou a advogada.
     Axel pegou a delicada mo e beijou-a.
     -- Mesmo que eu quisesse, no poderia tirar voc da minha mente.
Tchau.
     Beijaram-se e Axel se afastou. Olhou para trs e viu Sandra
fechando a porta. Ele suspirou fundo e percebeu que um sbito alvio o
invadiu. A dor de cabea diminuira... ou desaparecera? Mas o estranho
era que a nusea havia sumido. Por qu? A verdade era que vinha se
sentindo um tanto sufocado nos ltimos minutos, enquanto estava com
Sandra. Ele parou ao lado do carro e perguntou-se o que estaria


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                                              Transformao - Naasom A. Sousa



acontecendo consigo. Enfiou a chave na tranca e abriu a porta, deteve-se
por um instante. Olhou rua abaixo e rua acima, sentindo que algo o
incomodava. De alguma forma, de algum jeito sentia uma imensa
necessidade de voltar para casa... voltar para Leonardo e
principalmente para... Tina.
    Entrou no carro, deu a partida e acelerou, a caminho de sua casa.

                                 &&&

     Nilton Cross no estava conseguindo dormir e dirigiu-se at o
escritrio do templo da PIEM para organizar alguns papis referentes s
despesas pagas pela igreja nos ltimos meses, mas foi surpreendido no
exato em que entrou, pois naquele mesmo momento o telefone comeou
a tocar.
     Ele atendeu imediatamente. A voz e Melina era de enorme aflio:
     -- Pastor Cross, algo de muito ruim aconteceu ao Alan! Eu posso
sentir, pastor! Eu posso sentir! Meu Deus, ele est mal!
     -- Melina? Do que voc est falando? Acalme-se, minha filha!
Acalme-se!
     O pedido de Nilton pareceu no chegar ao outro lado da linha.
     -- Desculpe-me, pastor, mas tenho certeza que algo aconteceu com
Alan... Oh, Senhor!
     -- Minha querida... Por que voc acha que isso aconteceu?
     Melina tentou buscar palavras em sua mente momentaneamente
disturbada.
     -- Eu estava deitada e... de repente senti algo forte e... depois desci
at  cozinha para beber um pouco de gua. Peguei o copo e fui at a
geladeira. Quando abri aporta, senti uma pontada forte no corao e
logo percebi que era alguma coisa que havia acontecido com Alan... o
meu pensamento foi direto nele, pastor! Eu... foi to forte o que eu senti
que sem querer soltei a garrafa e ela espatifou no piso! Ainda estou
sentindo o aperto no meu peito... eu no sei o que fazer. -- sua voz, ao
final, era um suave choramingado.
     Nilton tentou acalm-la. Suas palavras foram ditas bem devagar.
     -- Melina, isso pode ser algo ao acaso... Pode ser que voc no pra
de pensar no Alan e isso pode lev-la a sentir o que sentiu.
     -- No, pastor! No! Eu posso sentir isso. Acho realmente que Alan
no est nada bem...
     -- Tudo bem, minha filha, j que voc diz isso... Mas, tente se
acalmar, sim? O melhor que voc tem a fazer, Melina,  deixar tudo nas


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                                              Transformao - Naasom A. Sousa



mos de Deus, confiar nEle, deixar que Ele faa segundo o Seu querer.
Sei que isso no  nada fcil para algum que ama e quer seu amor
sempre perto, mas isso somente ser capaz de acontecer se Deus assim o
permitir. Ento ore e ore, minha querida irm, e tenha f, pois o nosso
Deus  misericordioso e nos ama como nenhum outro.
      Houve um momento de hesitao por parte de Melina, mas quando
ela voltou a falar, seu tom de voz parecia bem mais racional e
controlado.
      -- Tudo bem, pastor, queira me desculpar, por favor. Estou muito
aflita com tudo o que anda acontecendo. Pensamos que somos forte na
f, mas, quando algo acontece de verdade, vemos que temos muito mais
a aprender, vemos que nossa f no  forte o bastante para suportar as
grandes tribulaes da vida.
      O pastor Nilton Cross com um leve sorriso suavizou a situao e
confortou sua ovelha:
      -- Estamos todos sujeitos a passar por isso, minha irm -- disse ele
--, o nosso Senhor Jesus disse que no mundo teremos aflies, mas que
tenhamos bom nimo, pois Ele venceu o mundo e por isso, estando ns
ligados a Ele, podemos vencer tambm.
      Ento, Nilton pde ouvir um suspiro vindo de Melina.
      -- Mais uma vez, voc tem a razo, pastor Cross -- admitiu ela.
      -- A palavra de Deus tem razo, Melina -- corrigiu o pastor.
      -- Sim.
      Dando o assunto por resolvido, Nilton mudou de rea para dar
uma gua com acar para sua ovelha e fazer com que seu corao se
recompusesse. Perguntou:
      -- Como est os pequeninos Jaime, Jair e Jssica?
      -- Esto bem --respondeu Melina com a voz rouca. -- Perguntam
constantemente pelo pai, perguntam quando voltar... principalmente
Jssica. Ela sente muita a falta de Alan. Ele sempre ora com ela quando
vai dormir... Agora ela est em minha cama. No conseguiu dormir sem
ter sido beijada por ele... Eu no sei mais o que falar para os trs. Estou
com medo que esteja pecando quando digo que Alan est fazendo uma
viagem.
      Nilton tornou buscar palavras de conforto.
      -- No se preocupe com isso, Melina. O Senhor sabe que voc est
fazendo isso para proteg-los.
      -- , no fundo  exatamente isso que estou fazendo.




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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



    -- Ento? Bem... quanto a Alan, ore por ele e tenho certeza de que
tudo estar maravilhosamente bem, pois ele estar nas mos protetoras
do Deus altssimo.
    Melina falou com ar audivelmente aliviado:
    -- Obrigada, pastor, j me sinto muito melhor.
    -- De nada, minha filha -- disse Nilton. -- Que Jesus a abenoe.

                                &&&

     A festa na danceteria havia sido de arromba. Muitas mulheres, som
da pesada, bastante bebida e, para completar a noite, uma briga para
valer, pensava Ciro Sazze, um executivo da cidade. Ele estava em seu
carro conversvel pensando na festa em que acabara de sair. A festa do
ano, concluiu. Olhou para o lado, onde sua esposa encontrava-se
adormecida no banco do passageiro. Est recuperando as energias, disse a
si mesmo.
     Voltou os olhos para a pista e se deparou subitamente com duas
figuras da noite  sua frente. Seu instinto imediatamente fez com que
pisasse fortemente no pedal do freio, parando o carro alguns centmetros
dos dois homens. A esposa de Ciro despertou alterada no mesmo
instante em que ele saiu do carro para tirar satisfaes com os homens.
     -- O que vocs pensam que esto...
     Foi nesse momento que viu uma arma sendo apontada para o meio
da sua cabea.
     -- No quero machucar voc nem sua mulher. S quero o carro,
porque como pode ver, estou com uma emergncia -- disse Carlos, com
Alan debilmente apoiado em seus ombros.
     Ciro Sazze notou Alan com a roupa coberta de sangue e balbuciou:
     -- Eu no... no...
     Carlos engatilhou a arma ruidosamente.
     -- No me faa usar isso. Seu carro estar em boas mos -- ele
olhou para a mulher de Ciro pelo cantos dos olhos e observou-a pr a
mo sobre um aparelho celular. -- Nem pense em fazer isso, se no seu
queridinho aqui ir ficar sem miolos!
     -- Mara, largue isso e saia desse carro! -- gritou Ciro desesperado.
     Imediatamente, a mulher soltou o telefone, abriu a porta do veculo
e projetou-se para fora, salvando a vida de seu marido.
     Carlos fez sinal para que a mulher se juntasse a Ciro. Ela obedeceu.
Com algum esforo, fez Alan caminhar at o carro, mas sempre com o
casal sob a mira da sua arma. Abriu a porta do motorista e, com grande


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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



trabalho, ambos entraram no veculo. Carlos fechou a porta, colocou a
primeira marcha e acelerou, fazendo o carro decolar e deixando seu
proprietrio com a esposa para trs.

                               &&&

     Ele dirigia apenas com a mo direita e, ao passar a marcha,
rapidamente levava a mo  alavanca e trazia-a de volta ao volante. Um
movimento feito numa questo de segundos, uma prtica adquirida nos
anos em que roubara carros.
     Levou os olhos para Alan e observou o sangramento diminuir de
intensidade. Protestou proclamando um palavro sussurrado. Fixou o
olhar na pista por algum tempo e ento voltou-o para Alan novamente.
     -- Ei, pastor... -- tentou uma comunicao. -- Fale comigo! Fale
comigo e diga para que lado fica essa tal rua!
     Esperou uma resposta. Nada saiu da boca de Alan.
     Carlos tentou novamente:
     -- Pastor, volte para o mundo dos vivos! Responda para onde fica a
rua que voc quer ir!
     O homem ferido soltou um grunhido de dor e entreabriu os olhos,
concentrando-se na rua a qual seguiam, tentando reconhecer seu nome.
Carlos, observando-o, resolveu ajud-lo.
     -- Estamos na avenida Milton Lira, passando no cruzamento com a
rua Laudir Reis.
     Com imensa dificuldade, Alan abriu a boca e balbuciou em tom
quase incompreensvel:
     -- V direto... por mais sete quarteires e... dobre  esquerda,
seguindo... seguindo sempre em frente... at avistar uma grande placa
e...
     Alan deu todas as informaes necessrias para que chegassem at
a rua Josu Golfinho e ento se calou outra vez, pondo com isso, o
silncio para reinar dentro do carro.
     Carlos continuava de olho na pista e podia ver somente trs carros
ao longo da via onde estavam, mas isso no chamava muito a sua
ateno, pois encontrava-se com a mente ocupada de mais com outro
assunto.
     -- Por que voc se atirou na minha frente e recebeu a bala por mim,
pastor? Por que resolveu salvar a minha vida? -- indagou.
     Nenhuma resposta foi dada. Alan havia apagado.



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                                               Transformao - Naasom A. Sousa



     O orgulho de Carlos no o permitiu que repetisse a pergunta. Mas
sua cabea estava abarrotada de questes a respeito da atitude de Alan.
Por que arriscar a prpria vida para salv-lo? Com isso posso descartar a
possibilidade de que ele pode estar trabalhando para Lucas? Mas-que-droga!
Claro que sim! O homem praticamente... seu pensamento foi cortado
quando voltou o olhar para o leno cinza, agora totalmente vermelho.
Carlos levou a mo algemada ao leno e constatou que estava
completamente encharcado. Pisou mais forte no acelerador, olhando
novamente para alm do pra-brisa.
     Suas idias, ento, se enfocaram em Vip. Repentinamente o sangue
ferveu dentro de si. Traioeiro! Mais uma vez tentou acabar comigo. Ainda
bem que tive a ajuda de Nick, seno... foi por um fio, disso no tinha dvida
alguma. Pelo menos continuava com a fita em seu poder. Isso era
importante, pois com ela ainda tinha chance de resgatar...
     Nicole... Como ela estaria? Morta? Viva? A nica coisa que tinha
certeza era o fato de ela no estar ao seu lado. Uma dor forte apertou-lhe
o peito; um sentimento de perda. No! Gritou ele intimamente. Ela
precisa estar viva! Eu necessito que ela esteja viva! Suspirou profundamente,
pensando em seus cabelos dourados, seus olhos verdes apertados, e em
sua boca fina com o lindo sorriso que era uma constante em seu dia-a-
dia. Carlos apertou o volante com grande presso nos dedos e sentiu um
n na garganta dificultar-lhe a respirao entrecortada.
     Abanou a cabea como se quisesse recobrar os sentidos ou
simplesmente coloc-los em ordem.
     Tirou o olhar da pista e colocou-os sobre a figura moribunda ao seu
lado. Observou Alan e achou-o ainda mais abatido, mesmo estando ele
desacordado. A expresso dos olhos fechados refletia isso. Carlos fez o
carro correr o mximo que podia.
     Agente, pastor, s mais um pouco. J estamos chegando! Desejou no seu
ntimo e, subitamente, Carlos se pegou surpreso e estarrecido, porque de
alguma forma; de alguma maneira, pela primeira vez, via-se preocupado
com daquele homem.

                                  &&&

    -- Para onde eles foram? Diga-me! -- inquiriu Lucas com a arma
em punho, o olhar voltado para baixo. Fitava Nick Gradinno sentado no
cho, muito ferido, ensangentado e acuado pelos traficantes que o
rodeava.



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     -- Abra logo o bico, seu idiota! -- gritou Tito, pisando no ombro de
Nick, onde havia um ferimento aberto  bala. Instantaneamente,
puderam ouvir o grito de dor que ecoou pelo ar. -- Fale logo!
     O dono do desmanche mordeu os lbios e tentou falar:
     -- Vocs podem ir at a esquina e ver se o Papai Noel est
distribuindo presentes por l -- balbuciou. -- Ou melhor, vo pro
quinto dos infernos!
     Lucas sorriu e ento, subitamente, sua expresso tornou-se slida e
spera. Puxou o gatilho e pde sentir o coice no punho rijo. O joelho
esquerdo de Nick explodiu numa fumaa vermelha. Outro berro
tortuoso rompeu a noite.
     -- Eu sei o quanto isso di, meu caro. Mas se no me disser o que
quero saber, vou atirar no outro joelho, e ento no seu cotovelo, no outro
e vou continuar at que voc no agente mais e morra lentamente --
ele pausou tomando ar. -- Agora vamos tentar de novo. Diga-me para
onde Carlos e aquele outro miservel foram?
     Em meio a dores insuportveis, Nick cuspiu sangue no cho,
limpou a boca com a manga de sua camisa j quase toda manchada e
disse:
     -- No sei se voc  surdo, mas j falei que eu no tenho a mnima
idia para onde aqueles dois foram, eu...
      Lucas o interrompeu com mais um tiro, desta vez no joelho direito,
como havia dito. Nick se contorceu no cho e conteve um novo grito,
deixando escapar somente um forte gemido. E, antes que Lucas dissesse
alguma coisa, denodadamente ele proferiu:
     -- Digam-me uma coisa, seus crpulas, j souberam alguma vez o
que algum  capaz de fazer por amor? -- no esperou que
respondessem. -- Tudo. Mesmo que isso custe a prpria vida.
     -- Voc  apaixonado por Carlos?  isso o que voc est querendo
nos dizer? -- indagou Lucas.
     -- No, no estou querendo dizer isso. O que estou querendo dizer
 que Carlos iria fazer sua parte no acordo como havia prometido,
mesmo que isso significasse viver fugindo da polcia pelo resto de seus
dias. Quanto a mim, sou algum em quem Carlos pode confiar; um
grande amigo. Mas creio que vocs no sabem o significado das palavras
confiana e amizade.
     Tito se aproximou encolerizado e desferiu um grande soco em Nick.
     -- Ora, cale-se! Fale de uma vez para onde os dois fugiram!
     Nick tossiu, com dificuldade para respirar e falou:



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     -- Eu estou falando numa lngua desconhecida, por acaso? Assim
como voc no sabem para onde eles se foram, eu tambm no sei. H
muito tempo que eu no via Carlos, por isso no sei onde ele vive!
     Lucas apenas olhou para Nick sem dizer uma palavra, estudando-o
por um longo momento. Chamou um palavro e deu as costas para
todos, dirigindo-se para as escadas que levavam para os andares
inferiores.
     Tito observou sua atitude e correu para alcan-lo.
     -- Chefe... o qu...
     -- Vamos embora. Nosso momento aqui j acabou.
     -- E quanto quele cara ali -- perguntou com relao a Nick
Gradinno.
     Lucas parou e fitou Tito nos olhos.
     -- Voc sabe muito bem o que fazer -- disse laconicamente. Tornou
a andar, deixando Tito sozinho a olh-lo. Em sua mente s conseguia
pensar: Chegou a hora mais difcil do trabalho.

                               &&&

     -- O qu? -- a voz de Vip, pelo aparelho celular, estava bastante
alterada e ameaadora como sempre, e Lucas sabia bem o que isso
significava.
     -- Isso mesmo Vip. Carlos j esperava que fizssemos algo e
colocou um atirador no alto de um prdio, pegando-nos de surpresa
quando iniciamos a segunda parte do seu plano. Infelizmente ele
escapou novamente com o tal cara estranho, que acabou salvando a vida
dele, recebendo uma bala destinada a Carlos. Perdemos alguns homens,
mas pegamos o atirador e o pressionamos para que revelasse para onde
os dois foram, mas ele no abriu o bico.
     Houve um instante de silncio na linha.
     -- Devo admitir que esse homem que est com Carlos vem se
tornando cada vez mais inconveniente -- disse Vip abrupta e
indulgentemente. -- Voc pegou a fita, no pegou?
     Lucas hesitou um pouco antes de responder:
     -- Ahn... quase. Bino a tinha nas mos, mas foi acertado pelo
atirador e Carlos acabou pegando-a de volta.
     -- Isso  mal, Lucas. Voc sabe muito bem o que isso significa, no
? -- No houve resposta. -- Temos que conseguir essa fita de uma vez
por todas, seno ir ser o fim e tudo estar acabado...
     Lucas o interrompeu com extremo cuidado.


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     -- Acalme-se, Vip, dou-lhe minha palavra de que a fita logo estar
em nossas mos e Carlos  sete palmos debaixo da terra. Enquanto isso,
o que faremos com a noivinha dele?
     A voz eletrnica que saiu do telefone celular de Lucas estava
impregnada de averso.
     -- Vamos preserv-la por mais um tempo. Carlos  muito esperto, e
termos um trunfo debaixo da manga  sempre bom, principalmente
quando esse trunfo se trata de uma mulher bonita e indefesa. Com
certeza ela ainda nos ser de muita utilidade at que tenhamos o que
queremos.
     Repentinamente, uma lembrana surgiu na mente de Lucas.
     -- Carlos ameaou que a fita iria cair em mos erradas se no
cumprssemos nossa parte no acordo. O que voc acha disso?
-- No creio que ele far tal coisa. Tenho certeza que tentar uma vez
mais conseguir o que quer. Certamente ainda tem esperana de ter a
mulher que ama ao seu lado e devemos explorar isso. Mas Lucas...
dessa vez temos que recuperar a droga dessa fita, porque sinto que, se
no fizermos isso, tudo o que executamos; todos os nossos planos e tudo
o que construmos at hoje se tornar em runas.




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                                         Captulo 21



A   sala estava escura quando Axel abriu a porta e entrou em sua casa.
   Andou por entre os mveis e cruzou o recinto sem problemas, pois
sabia a ordem dos objetos espalhados pelo aposento. Dirigiu-se pelo
corredor e parou em frente ao quarto de Leonardo. Entreabriu a porta e
olhou para o seu filho, que dormia tranqila e profundamente bem. Axel
sorriu satisfeito como qualquer pai coruja. Fechou a porta. Caminhou
novamente e foi at seu prprio quarto, girou a maaneta da porta,
abriu-a e entrou no aposento iluminado apenas por um pequeno abajur.
     A primeira coisa que viu foi Tina deitada na cama, coberta por um
grosso cobertor -- sozinha. Ele chegou-se perto da cama e limitou-se a
observar sua esposa. Como posso... Fechou os olhos por um breve
momento e vagarosamente sentou-se na cama, certificando-se de que
no faria o menor rudo que pudesse acordar Tina. Comeou a
desabotoar a camisa e logo aps se encarregou de retirar os sapatos de
couro preto dos ps.
     -- Como foi a noite na central? -- perguntou Tina, pegando Axel de
surpresa.
     Ele se virou rapidamente para ela com expresso assustada.
     -- Oh, querida... est acordada a essa hora? -- esticou o brao e
tocou-a no ombro, ento, voltou a concentrar-se nos cadaros dos
sapatos. -- Hoje foi uma noite de muito trabalho, cansativo. -- devolveu
o olhar a ela novamente. -- Olhe, eu... queria me desculpar por faltar no



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compromisso dessa noite.  por causa disso que mais cedo ou mais tarde
irei acabar largando esse emprego.
      Tina permaneceu em silncio; Axel prosseguiu:
      -- Como Leonardo passou a noite? Ele est bem?
      Ela hesitou durante um suspiro demorado. Ento, sentou-se na
cama e segurou os joelhos.
      -- Agora ele est bem, mas ficou muito decepcionado com a sua
ausncia. Na maior parte da noite ficou em silncio, e nas vezes em que
falou, foi para perguntar se voc no estaria preparando uma surpresa
para ns e se a qualquer momento romperia a porta para jantar conosco
a passarmos a noite como uma famlia.
      Axel olhou para o cobertor e fixou a seguir o rosto moreno de Tina.
      -- Mais uma vez peo desculpas, querida. Reconheo que estou
faltando com minhas obrigaes como marido e pai, mas prometo que
daqui para frente vai ser diferente, voc pode confiar em mim.
      Os lbios de Tina ficaram selados, enquanto seus olhos fitavam o
marido com traos cticos. Confiana? Poderia existir naquele momento
entre eles essa palavra? Podia ela voltar a confiar nele? Perguntava-se
Tina dubiamente.
      De repente, o telefone tocou e Axel prontamente esticou a mo para
atender. Colou o fone no rosto e ouviu a voz chamar pelo seu nome na
linha. Era o policial Levi, da central.
      -- Desculpe-me acord-lo a essa hora, Axel, mas aconteceu algo.
      -- Tudo bem, Levi. O que aconteceu?
      -- Uma coisa muito estranha, e advinha onde?
      -- No tenho a menor idia -- respondeu Axel; Levi j esperava por
isso e disse:
      -- Tudo aconteceu no mesmo local onde mataram Pablo e pegaram
Caio, Clintel com a Treze. Este est se tornando o endereo das festas da
noite, hein?
      -- Onde voc est agora?
      -- Estou aqui na central, mas eu e alguns outros caras da diviso
estamos indo para l nesse instante.
      -- Certo, ento nos encontramos l. At logo.
      Axel desligou e olhou para Tina que j o fitava. Ele respirou fundo e
balbuciou:
      -- Houve algo de errado no mesmo lugar onde Pablo foi... morto --
pensou em no ter contado para Tina sobre o que na verdade tinha se
passado com o amigo --, e... tenho que ir. Mas eu...
      Tina interrompeu-o bruscamente:


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     -- No precisa dizer nada, querido, eu compreendo -- ela abriu um
sorriso torto e sem graa. -- Pode ir, est tudo bem. -- tornou a deitar-se
e cobrir-se com o cobertor at a cabea. No, definitivamente no estava
nada bem.
     Axel sentiu um grande impulso de ir at ela e abraar-lhe o corpo
fino e macio, mas, ao invs disso, calou novamente os sapatos e ps a
camisa por cima do corpo forte. Deu uma ltima olhada na esposa e
deixou o quarto em silncio.

                                 &&&

     --Jesus te ama, Carlos... Ele morreu por voc... Deu a prpria vida
por voc...
     Carlos retirou os olhos da pista e fixou-os em Alan que havia
voltado a si novamente. Sua atonia parecia cada vez pior e era visvel a
dificuldade que sentia para falar.
     -- Pare de falar um pouco... Olha aqui, pastor, se voc no parar de
falar, quem ir morrer ser voc. No fale nada, sim? J estamos perto
do lugar que me indicou -- notou a respirao de Alan arquejante, que
ainda insistia em tentar falar algo mais. -- Mas ser possvel! Ser que
nem com uma bala no corpo voc no pra de falar essas coisas?
     Alan tossiu e engoliu seco.
     -- So coisas que voc precisa saber... precisa entender... porque...
conscientizando-se disso... voc ser... feliz. S assim... voc conseguir
ser feliz... Carlos.
     Carlos mordeu os lbios e voltou o olhar para a estrada. Ser feliz?
Ser que aquelas palavra ainda tinham algum significado para ele?
Poderiam elas ainda se encaixarem em sua vida? Indagava-se. No sabia
ao certo o que pensar sobre aquilo, mas de uma coisa sabia muito bem:
seria impossvel ter a felicidade ao seu lado sem Nicole e com aquela
cidade inteira  sua procura, julgando-o por um crime que no havia
cometido.
     Alan tossiu outra vez e atraiu a ateno de Carlos, falando algo
inteligvel aos ouvidos.
     -- Pastor, pela ltima vez, no tente falar nada. Mas que droga!
Voc  surdo ou o qu?
     No adiantou nada Carlos tentar impedi-lo de se pronunciar. Alan
gemia e suspirava ao encontro de foras preciosas para que pudesse
reproduzir o som necessrio para que sasse de sua boca algumas poucas
palavras que Carlos viesse a compreender.


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    -- No fale nada! No fale nada! -- ordenava Carlos, para o bem de
Alan.
    -- Eu... Eu... -- tentava o servo do Senhor.
    -- Pastor, pare!
    Alan tossiu e continuou:
    -- Eu... sei, Carlos...
    Carlos esbravejou:
    -- Que droga de teimosia! Cale de uma vez essa boca!
    Alan puxou todo ar que pde para dentro de seus pulmes e soltou-
o com frases entrecortadas em tom fraco, mas compreensvel.
    -- Eu sei, Carlos... Eu sei o que contm na fita... Sei... sei o grande
segredo que... est guardado nela.
    Carlos fitou-o atnito.
    Como ele poderia saber?
    -- O qu... do que voc est falando, pastor? Responda! -- Carlos
se pegou sacudindo Alan de um lado para o outro. Agora ele queria
respostas. -- Como pode saber disso? Como...
    Mas percebeu que estava falando para si mesmo, pois Alan j havia
tornado a desmaiar com a cabea cada para o lado.
    Carlos voltou-se para a pista escura, mas seu pensamento
permaneceu em Alan e no que poderia ele mais saber a respeito do que
no lhe havia revelado.
    Tudo era estranho demais para o seu gosto.

                                 &&&

     Apinhado de policiais, a rua Clintel com a Treze j se encontrava
como um verdadeiro formigueiro. Alguns homens destacados se
encarregavam do isolamento da rea, enquanto os fotgrafos da polcia
clicavam pausadamente suas cmeras para os arquivos e relatrios que
mais tarde iriam ser redigidos, e ainda, se podia ver uns poucos policiais
e detetives em busca de pistas por toda a parte. O debate era constante
no momento entre todos os presentes em busca de solues para o que
acontecera ali.
     Axel estacionou o carro no meio-fio  quinze metros da fita amarela
de limitao e imediatamente foi abordado por Levi.
     -- Como est, Axel? -- perguntou o policial.
     -- Estou bem, e voc?
     -- Vou indo. Espero que no o tenha acordado no melhor do seu
sono.


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     Axel varreu a redondeza com os olhos antes de responder:
     -- Por incrvel que parea, no estava com o mnimo de sono. J
sabem o que aconteceu aqui?
     -- J -- Levi guiou Axel alm da faixa de isolamento.
     -- E ento?
     O policial pensou na resposta. Era um tanto exagerada, mas era o
que realmente pensava.
     -- O que aconteceu aqui foi uma verdadeira guerra.
     Axel sorriu.
     -- No  uma piada, cara -- disse Levi. -- Telefonaram para a
central e denunciaram que ocorreu um grande tiroteio neste local. Uma
batalha de grandes propores mesmo. Chegamos aqui  uns vinte
minutos atrs e pelo que pudemos constatar, foi isso mesmo o que se
realizou aqui. Uma batalha mortal.
     O agente fitou o policial.
     -- Sabe de uma coisa? Voc deveria seguir carreira de ncora de
noticirio. Voc narra muito bem os acontecimentos. Verdade! Voc d
nfase s coisas.
     Ambos riram. Axel continuou com a palavra:
     -- Acha que o que se encadeou aqui est ligado ao que aconteceu
com Pablo e Caio?
     Levi hesitou.
     -- Sinceramente no sei o que pensar sobre isso, mas de uma coisa
estou certo: o que ocorreu aqui, com certeza,  to misterioso e sinistro
quanto o que ocorrera naquela noite. Venha. -- levou Axel a um corpo
coberto por um saco plstico preto.
     -- Fruto da batalha? -- indagou Axel.
     Levi fez que sim com a cabea.
     -- Veja -- revelou o corpo, retirando o saco plstico. -- Tudo indica
que foi torturado. Com essas perfuraes de bala nos cotovelos e
joelhos... Sabemos que so as partes que mais proporcionam dor intensa
sem que a pessoa venha a ter morte rpida.
     -- Pelo jeito ele demorou bastante para falar.
     -- O mais provvel  que ele no tenha falado coisa alguma --
comentou Levi.
     -- , isso  o mais provvel -- Axel anuiu.
     -- Mas, o que  estranho  a quantidade de sangue espalhado por
todo canto. Olhe.
     Caminharam juntos dentro da rea delimitada, isso era exatamente
um quarteiro inteiro. Axel pde observar possas e filetes de sangue em


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cada permetro do local e muitas perfuraes no asfalto. Realmente era
um tanto estranho para ele. Andou mais alguns metros e notou pedaos
de borracha e vidro espalhados pelo cho. Abaixou-se e examinou
ambos os elementos, logo aps voltou a se erguer.
     -- E ento, o que voc acha? -- perguntou Levi.
     O agente coou o queixo, pensativo.
     -- O que acho? Bem... Primeiro: com todo esse sangue por todos os
lados, devo dizer que, ou aquele cara sob o saco plstico tem sangue pra
dar e vender ou esto faltando corpos aqui; segundo: deveria estar por
aqui, em algum lugar, um carro com os vidros despedaados, muitos
buracos na carroceria e pneus totalmente esbandalhados; terceiro: isso
no est me cheirando nada bem.
     Levi fitava o amigo quando indagou sinistramente:
     -- Se  isso mesmo, por que algum iria esconder corpos, Axel? Por
que no deix-los espalhados por aqui? Por que haveriam de deixar
apenas aquele infeliz sob aquele saco e ocultar o resto? E ainda, qual a
razo de levarem um carro que certamente nem a sucata haveria de
querer? -- Levi suspirou desconsolado.
     Axel olhou para o cu, como que estivesse tentando ver nas estrelas
algum mapa que pudesse lev-lo ao "xis" da questo. Por fim, disse:
     -- So muitas perguntas, meu amigo. Inmeras na verdade.
Perguntas e mais perguntas. Mas ento, para completar, eu lhe fao mais
uma pergunta: onde esto as respostas?
     Se entreolharam e responderam ao mesmo tempo:
     -- Esto por ai em algum lugar. O que temos que fazer  procurar,
lutar, chegar na beira do abismo e encontrar.

                                &&&

     A Josu Golfinho era uma rua de casas populares de todas as
formas, tipos e tamanhos que se estendia por muitos quarteires, um
tanto distante do centro da cidade, por isso era suprido de duas frotas de
nibus que subia e descia pela pista constantemente.
     O carro dobrou a esquina derrapando o pneu e acelerou rebolando
desconcertadamente a traseira.
     Carlos fixou os olhos nos nmeros estampados nos muros de cada
residncia e contou: 26... 70... 120... 186... 244 E ento 308. Porm, no
desacelerou e passou direto, deixando uma simples, mas bonita casa de
alvenaria para trs. Tornou a olhar para Alan -- ainda desacordado --
tempo suficiente para observar seu estado que no era nada bom.


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    Estacionou o carro a trs quarteires da tal casa e desligou o motor.
Abriu a porta do motorista e puxou Alan, do banco do passageiro para o
seu colo. Imediatamente, notou seu palet manchar-se de sangue
quente. Agente, j estamos aqui, a um passo de sua casa.
    Ps-se a andar rapidamente sob as estrelas da madrugada rua
abaixo, de volta  residncia de nmero 308. No sentia nenhum
movimento de Alan em seus braos e ento andou mais depressa.

                                &&&

     Senhor, prepara-me cada dia mais para fazer tudo de acordo com Teus
planos na minha vida. No me deixe a merc do vento, mas guia-me
seguramente pelos caminhos da vida,  Deus meu, at que Tu venhas...
     A orao era contrita e emocionada. No p de sua cama, ela orava
com o fervor do Esprito Santo em sua vida ao Senhor Deus Todo
Poderoso. Clamava pela intercesso de Jesus em sua vida, pela
misericrdia do Senhor em todos os momentos, para que Suas bnos
cassem sobre seu esposo e tambm para que livrasse seu lar dos
malfeitores do bairro e do inimigo. O momento era glorioso e confortante
at que foram ouvidas frenticas batidas na porta. A orao foi
interrompida.
     Ela ergueu a cabea e olhou em direo da porta do seu Quarto que
dava para a sala e conseqentemente para a porta de entrada que se
encontrava trancada. Ps-se de p e precipitou-se para fora do seu
aposentou. Foi ento que sentiu uma mo forte apertar-lhe o brao e
puxar-lhe de volta para trs.
     -- O que foi, Fbio? -- perguntou ela para seu marido, que
segundos atrs dormia deitado sobre a cama.
     Fbio fitava-a com expresso cautelosa.
     -- Espere, pode ser algum ladro. Eu vou com voc. -- num pulo
ficou de p, e ambos saram do quarto, seguindo para a porta da sala.
     As batidas pareciam mais fortes e impacientes. Fbio conduziu sua
esposa por entre os mveis espalhados pelo grande cmodo, at que
ouviram uma grave voz do outro lado da porta envernizada.
     -- Abram essa porta! Abram! Um homem est morrendo aqui!!
     Fbio no se comoveu. Sabia muito bem dos truques que os
bandidos da redondeza aplicavam para surrupiar as casas. Piscou para
Vitria, sua mulher, e mansamente levou o rosto ao olho mgico.

                                &&&


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    Carlos estava de frente para a porta escalavrada da casa e notou
quando um globo ocular apareceu no olho mgico. O instinto foi
imediato. Puxou a arma e apontou na direo do olho de quem estava
do outro lado.
    -- Abra essa porta agora e no se afaste da porta ou voc vai ficar
caolho! -- proferiu.

                                &&&

     O espanto de Fbio foi instantneo. Estalou os dedos na direo de
Vitria com o pasmo ntido no rosto e, sem desgrudar a face do olho
mgico, gesticulou para que ela sasse de perto dele e a seguir comeou a
destravar as trancas da porta.
     -- O que voc est fazendo? -- inquiriu Vitria espantada.
     Sem responder, Fbio abriu a ltima tranca e se afastou quando
Carlos arremessou-se para dentro da casa e, sem perda de tempo,
indagou com voz grossa e enrgica, com a arma em punho:
     -- Onde tem um quarto por aqui? Temos que p-lo numa cama!
     Houve uma troca rpida de olhares surpresos e angustiantes entre
Fbio e Vitria. O marido foi quem falou: -- Por aqui.
     Fbio dirigiu-se velozmente para seu quarto, sendo seguido por
Carlos e Vitria logo a seguir.
     O quarto era um cubculo confortvel, preenchida por uma cama de
casal, um criado mudo, um guarda-roupa e uma pequenina estante
sustentando um micro-sistem e uma bblia. A porta foi aberta e os
quatro romperam por ela. Carlos deitou Alan rpida, mas
cuidadosamente sobre a cama e ento respirou fundo, tentado
restabelecer as batidas descompassadas do corao.
     -- Jesus! O que aconteceu com ele? Com... vocs? -- perguntou
Vitria.
     -- Isso no importa no momento. O mais importante  que um
mdico seja chamado, e depressa. Ele est muito mal -- Carlos disse
bruscamente e voltou-se para fitar o casal. Seus olhos se depararam com
os dois a observar assombrados para seu brao. Ele acompanhou seus
olhares e deu-se por conta da algema  vista, presa em seu pulso. Ps o
olhar sobre eles novamente e fez questo que vissem a arma em seu
poder. -- Me arranjem alguma espcie de arame ou um grampo. Agora!
     Sem se demorar, Vitria correu at a pequena estante e alcanou um
de seus grampos e jogou-o para Carlos. Este pegou o objeto no ar e


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levou-o ao orifcio da algema em seu pulso esquerdo, abrindo-a com
isso, sem dificuldades.
     -- O qu... O que voc ir fazer quanto ao Alan? -- indagou Fbio,
cautelosamente.
     Os olhos de Carlos se encontraram com os dele e ergueu o sobrolho.
     -- Eu nada. J recebi algumas balas, mas no vi o que os mdicos
fizeram porque eu estava desacordado, e... -- pensou rapidamente. --
Espere um momento! Vocs o conhecem?
     Foi Vitria quem respondeu prontamente:
     -- Sim, conhecemos o Alan muito bem. -- ento arriscou: -- Por
favor... no nos faa mal. Deixe-nos cuidar dele, senhor.
     Como se no tivesse ouvido as ltimas palavras da jovem mulher,
Carlos murmurou em alta voz:
     -- Tragam um mdico aqui, rpido! Telefonem para um... Faam
alguma coisa til! Quero um mdico de confiana. -- ele pensou melhor.
-- Ah! Traga o telefone para c e telefone daqui.
     Fbio andou at a sala e voltou com o telefone sem fio o mais
depressa que pde.
-- Disque -- ordenou Carlos.
     Fbio teclou o aparelho lentamente para no errar o nmero e no
encadear a fria de Carlos, que parecia bastante alterado. Calmamente
esperou atenderem ao quarto toque.
     -- Al, Andrey? -- Carlos podia sentir uma certa tranqilidade no
tom de voz do jovem homem, que continuou: -- Aqui  Fbio. Quero
que venha at minha casa imediatamente. -- houve uma breve pausa. --
Eu sei que  tarde, mas  uma questo de vida ou morte. -- calou-se por
um momento e deu uma olhadela para Carlos que estava tirando a
algema de Alan. -- No, Andrey, no  alguma brincadeira... -- a
pacincia e a calma se esgotaram. -- Escute!  Alan. Ele est aqui em
casa, est com um ferimento  bala e acho que perdeu muito sangue.
Precisa da nossa ajuda... da sua principalmente.
     Um instante de silncio.
     -- Sim -- disse Fbio --, venha o mais rpido possvel... -- ouviu
ligeiramente a voz do amigo do outro lado da linha. -- Isso mesmo,
Andrey. Chegou a hora do ajustes de contas.
     A ateno de Carlos foi automaticamente despertada. Ajustes de
contas? O que significava aquilo? Seria um aviso camuflado alertando a pessoa
com quem falava de que haveria perigo na casa? Ele fitou o casal suspeito
com expresso especulativa.
     Fbio cancelava a ligao com as ltimas palavras ao telefone:


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     -- Venha rpido. Cada segundo ser importante para Alan. --
desligou o aparelho e voltou-se para Carlos. -- Est feito. -- olhou a
seguir para Vitria e fez uma leve meno com a cabea, tranqilizando-
a.
Porm, no ntimo de Carlos, a tranqilidade no existia, ainda mais
depois do telefonema. Estaria ele cavando sua prpria cova? Perguntava a si
mesmo. O jeito era esperar e conferir. Mas, como sempre, ele estaria
preparado.




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                                         Captulo 22



--     H quanto tempo ele est assim? --quis saber Andrey.
           Ele estava junto a Fbio e Vitria ao p da cama. Carlos se
encontrava encostado na porta como se bloqueasse a passagem por ela.
Respondeu ainda com a arma em punho:
     -- Umas duas horas, mais ou menos.
     Andrey olhou com temor para o casal ao seu lado.
     -- Deus,  muito tempo! Pelo que posso ver ele perdeu muito
sangue, e... -- Andrey coou o queixo. -- ser preciso fazer alguma
coisa e rpido.
     Enquanto isso, Carlos estudava Andrey. Era um tanto forte e alto.
Tinha um rosto quadrado e cheio, com profundos olhos negros e a
cabea coberta por cabelos levemente ondulados.
     O jovem recm-chegado debruou-se um pouco sobre Alan e levou
o ouvido um tanto a cima do seu nariz.
     -- A respirao est fraca. Por sorte, a bala no perfurou o pulmo,
mas... a m notcia  que ela ainda continua alojada dentro de seu corpo.
     -- Voc pode tir-la de dentro dele? -- perguntou Carlos.
     -- Temos que remov-lo para um hospital. O NR seria o mais
conveniente.
     -- Nem pensar! Daqui ele no sai!
     -- Por qu?



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     -- Ningum vai tir-lo deste lugar. Ele est correndo perigo de vida
l fora, mais ainda do que corre aqui dentro. Ele mandou traz-lo para
c e  aqui que ir ficar.
     Andrey olhou para ele e ento para a sua arma.
     -- Podemos saber o seu nome, senhor?
     Carlos hesitou.
     -- Carlos Lacerda.
     Andrey balanou a cabea.
     -- Sr. Lacerda... pode nos dizer o que aconteceu com Alan? Como
isso...
     -- Voc pode cur-lo ou no? -- cortou Carlos.
     -- Por que voc o trouxe para c? -- adiantou-se Andrey.
     A voz de Carlos soou spera quando respondeu:
     -- Ele me deu o endereo daqui e pediu para que eu o trouxesse.
     Andrey especulou:
     -- Se voc o trouxe para c,  porque voc se importa com ele, no 
mesmo? -- no deu tempo para que o outro homem argumentasse. --
Ento, sendo assim, faa o favor de baixar essa arma, porque do jeito
como est, s est tornando as coisas mais tensas. O que ns queremos 
o mesmo que voc: salvar a vida dele.
     Carlos ficou em silncio. Fitou os trs, um por um, tentando
encontrar alguma coisa que revelasse uma ameaa, mas no encontrou
um resqucio sequer. Voltou os olhos para a arma e ento, aos poucos,
foi baixando-a at que a ps de volta na cintura.
     -- Vai ser difcil tirar o projtil sem os instrumentos adequados,
mas temos que fazer isso de um jeito ou de outro e aqui. S receio que a
bala possa correr e causar uma hemorragia interna. -- Andrey informou.
Seus olhou se encontraram com os de Fbio e Vitria e falou a eles: --
Temos que orar para que ele suporte a operao, pois... no estado
delicado em que ele se encontra, qualquer coisa pode contribuir para sua
morte.
     -- Ento vamos orar j -- disse Vitria.
     -- Faramos isso de qualquer jeito, no faramos? -- concordou
Fbio.
     Os trs se agruparam do lado da cama em linha, todos de frente
para Alan e deram-se as mos num ato de aliana. Andrey olhou na
direo de Carlos e este entendeu prontamente que aquilo significava
um convite para uma "participao especial". Carlos abanou a cabea
negativamente. Andrey entendeu e demonstrou isso quando fechou os
olhos, esquecendo de tudo  sua volta.


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     Ergueram as vozes em orao, deixando que todas as suas emoes
flussem do mais profundo de seus coraes. Primeiramente adoraram e
exaltaram ao Santo Deus de suas almas e ento agradeceram por
estarem debaixo da Sua mo potente e da Sua graa majestosa.
Agradeceram pelo sopro de vida e pela transformao feita atravs de
Cristo Jesus com a graa do Pai Eterno. Enfim, profetizaram as bnos
do Senhor para Alan. Que o Deus Onipotente sustentasse as foras e a
vida do Seu servo.
     Carlos somente observava sem ao menos piscar o olho. Uma loucura,
pensou ele sobre aquilo que estava acontecendo ali. Uma perda de tempo.
O homem pode morrer enquanto esto a gritar sobre ele. Sua pacincia
comeava a se esgotar novamente. Ele se conteve.
     Fbio tomou a orao e terminou dizendo:
     -- Senhor, sabemos que podemos confiar plenamente em Ti, por
isso, contempla neste momento o Teu servo Alan. No sabemos como
isso aconteceu e nem porqu, mas Tu sabes todas as coisas e na Tua
palavra est escrito que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Ti, 
Pai. Deus querido, cuide do nosso irmo Alan e use o Andrey nas Tuas
mos para que tudo ocorra bem, pois Tu s o Mdico dos mdicos.
Senhor,  no poderoso nome do Teu filho amado, Jesus, que tudo isso Te
pedimos e desde j Te agradecemos. Amm.
     No final da Orao, a indagao na mente de Carlos era se todos
eles eram irmos de sangue de Alan. Deveria ser por isso que pediu para que
eu o trouxesse para c. Pensou consigo mesmo. Pelo menos, todos parecem ter
a mesma loucura dele no modo de falar. Os pensamentos de Carlos foram
interrompidos quando Andrey dirigiu a palavra  Vitria:
     -- Quero que ferva gua numa panela e traga para mim -- voltou-
se para Fbio. -- Pegue minha maleta de instrumentos que deixei dentro
do meu carro, por favor. Ah, sim. Tambm pegue uma sacola branca l.
Graas a Deus estava transportando para o banco de sangue alguns
instrumentos para transfuso. Alan ir precisar de uma.
     -- Vai mesmo tirar a bala dele? -- perguntou Carlos.
     Andrey fez que sim com a cabea e falou:
     -- Foi para isso que fui chamado aqui. Foi voc que mandou me
chamar, no foi?
     Foi como se Carlos no tivesse ouvido isso, e apresentou uma nova
indagao:
     -- Voc  mesmo mdico?
     -- Com diploma e tudo. Qualquer outra hora eu lhe mostro -- disse
Andrey com um sorriso torto.


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    Carlos no sorriu nem tampouco mudou sua expresso facial.

                                 &&&

     Poucos minutos depois, Vitria retornou com a panela cheia de
gua fervente ao mesmo tempo em que Fbio voltou com a maleta de
instrumentos de Andrey.
     -- Muito bem, gostaria que s o Fbio ficasse aqui me auxiliando.
Os demais, por favor, esperem na sala. O menor nmero de pessoas aqui
ser importante para a circulao do ar no aposento.
     Carlos olhou pelo canto dos olhos para Vitria que prontamente foi
at seus dois amigos, tocou em seus ombros, dando uma fora, e aps
isso se retirou. Relutantemente, Carlos deu as costas e tambm deixou
Andrey e Fbio a ss com Alan.
     Os dois jovens amigos trocaram um olhar com a certeza de que, o
que fariam a seguir seria algo delicadssimo, e uma vida estaria em jogo.
Mas essa vida no o de algum comum, e sim o de uma pessoa muito
especial. Algum que um dia havia dado duro e at mesmo arriscado a
prpria vida para salvar a deles.
     -- Agora  conosco, meu amigo -- disse Andrey.
     -- Mos  obra -- reforou Fbio.

                                 &&&

       Carlos estava com a cabea entre as mos, em p, escorado na
parede da sala. Algo o corroia por dentro. Uma tenso ntima que o
deixava enjoado. A ansiedade tomava conta de si e contribua para que a
dor de cabea que sentira por todo o dia se acentuasse.
       Ele consultou o relgio em seu pulso. Andrey e Fbio j estavam
trancados com o "pastor" no quarto a quase duas horas e isso deixava-o
mais perturbado. De repente se deu conta:
       Ei! Por que estou assim? Nem conheo esse cara direito! Ento por que
estou to atormentado por ele estar  beira da morte? Eu deveria estar mais
preocupado no momento era com Nicole! Exclamou para si mesmo.
       Mas sentia que algo o prendia quele homem. Principalmente
porque uma pergunta variava de um lado para outro dentro de sua
mente: Por que ele arriscou sua vida para salvar a minha? E ainda sobre o
que o prprio Alan havia dito: "Eu sei, Carlos... Eu sei o que contm na
fita... Sei... sei o grande segredo que... est guardado nela".



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      Ele estaria blefando? De que modo poderia ter descoberto o que contm na
fita? A confuso povoando a cabea de Carlos o fez suspirar fortemente,
e foi nesse momento que a porta do quarto foi aberta. Ele ergueu a vista
e deparou-se com o jovem mdico. Em seu rosto, um semblante cansado.
      -- E ento? -- perguntou Carlos, to rapidamente que chegou a se
admirar.
      Andrey olhou para ele e para Vitria que se aproximava e disse:
      -- Fiz o que estava ao alcance das mos humanas. Fbio est
descansando. Tirei o sangue dele, que  compatvel com o de Alan, e que
agora Alan est recebendo. Retirei a bala, mas... Bem, agora est por
conta do Senhor Deus.
      Esse papo novamente, pensou Carlos. S espero que esse mdico de meia-
tigela no seja to biruta quanto parece e tenha feito um bom trabalho. Quero
saber com certeza o que o pastor sabe de verdade.

                                  &&&

     Tocou cinco horas da manh quando Carlos despertou de um
rpido cochilo tirado no pequeno sof de dois lugares da sala. Passou os
dedos pelos olhos, que pareciam pesar cinco quilos cada e alisou o
cabelo escuro. Olhou  sua volta e lembrou onde exatamente se
encontrava. O pesadelo continuava. Suspirou profundamente e bocejou.
E agora, o que vem a seguir? Perguntou-se. Qual ser o meu prximo passo?
Para onde seguirei e o que irei fazer? Estava num lugar desconhecido, com
gente desconhecida que nunca tinha visto antes. Sua vida no valia mais
muita coisa, pois a nica fonte de vida que tinha para se sustentar talvez
no existia mais. Nesse momento ele viu a imagem de Nicole na sua
frente.
     -- Nicole... -- sussurrou ele.
     -- O que foi que voc disse? -- indagou Vitria que estava
passando por detrs do sof sem que Carlos notasse.
     Ele enrubesceu um pouco.
     -- O qu?... Ahn... Nada, eu... estou apenas pensando em voz alta.
Como o pastor est?
     Vitria levantou o sobrolho.
     -- Pastor? No sabia que Alan havia sido consagrado pastor!
     -- Oh, no. Acho que voc no entendeu. Eu  que o chamo assim.
     A jovem mulher sorriu e balanou a cabea em sinal de
compreenso.



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     -- Assim est certo. Bem... voltando  sua pergunta, no sei lhe
dizer muito sobre o estado dele. Nem Andrey pode dizer muita coisa
agora, porque Alan est em observao por enquanto. At agora no
apresentou nenhuma melhoria concreta e fica difcil constatar qualquer
coisa sem aparelhos mdicos adequados.
     Com expresso invarivel Carlos anuiu:
     -- Eu no entendo coisa alguma de medicina, mas posso
compreender. Eu queria... -- ele hesitou.
     -- Sim? -- ajudou-o Vitria.
     -- A arma era apenas para garantir que ele fosse atendido, eu...
     Mais uma vez, ela assentiu com a cabea.
     -- No precisa dizer nada. Agradecemos que o tenha trazido o mais
rpido possvel. Ahn... quer um pouco de caf?
     Carlos passou os dedos entre os cabelos e sentiu algo em sua
barriga grunhir e dizer sim em seu lugar.
     Vitria sorriu.
     -- No precisa dizer mais nada. Eu volto logo.
     Os olhos de Carlos perseguiram-na at ela desaparecer ao passar
pela porta da cozinha, e ento se depararam com Andrey vindo em sua
direo pelo estreito corredor que ligava o quarto com a sala onde se
encontrava.
     Sem nenhuma palavra o jovem mdico sentou-se ao seu lado.
     -- Por favor,... Carlos... me fale o que aconteceu com Alan, como
aconteceu e quando aconteceu. Precisamos saber. Somos muito amigos
dele e precisamos dessa informao para ver se conseguimos fazer algo
mais por ele.
     Carlos levou as mos ao rosto e declarou:
     -- Pelo que vi, realmente se importam com ele. Mas no posso falar
nada a esse respeito agora. Acho que o melhor  ele mesmo explicar para
vocs.
     Vitria voltou  sala com uma bandeja com trs xcaras contendo
um quente e aromoso caf. Entregou uma nas mos de Andrey e outra
nas de Carlos. Aps isso, se encaminhou pelo corredor at o quarto em
que Alan estava, ento, Carlos pde ver rapidamente, quando a porta do
quarto foi aberta por ela, que Fbio estava sentado numa cadeira e de
olhos fechados ao lado da cama -- a mesma em que Alan se encontrava
deitado com um curativo sobre o ferimento e com um soro ligado ao seu
brao direito. A porta foi fechada e a ateno de Carlos foi chamada por
Andrey.



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      -- Isso que aconteceu com Alan... d para se notar logicamente que
ele no deve ter se metido numa boa coisa, no ?
      Carlos sentiu que, de alguma maneira, aquilo que viu dentro do
quarto tinha lhe embrulhado o estmago. Ter sido a imagem do pastor
deitado na cama inconsciente? Perguntou-se. Ergueu-se e, no mesmo
instante, a porta do quarto foi novamente aberta e Vitria retornou 
sala.
      Carlos colocou a xcara ainda cheia de caf sobre a mesinha de
centro e seguiu na direo da porta que dava para a rua, sentindo que os
olhares dos dois jovens estavam em cima dele. Voltou-se para Andrey e
com ar de cansao respondeu a pergunta:
      -- O seu amigo est metido numa encrenca das grandes. Para falar
a verdade, ns estamos. E pode apostar que no  uma coisa nada boa
mesmo.
      Ele levou a mo  maaneta e abriu a porta, mas foi impelido para
girar a cabea e olhar para trs quando Vitria indagou
melancolicamente:
      -- Mas... voc ainda volta, no ?
      Carlos hesitou por um breve momento, fez um sinal afirmativo com
a cabea e deu de ombros. Disse:
      -- Odeio ter que dizer isso, mas... eu no tenho mais para onde ir.
      Com essas ltimas palavras ele deixou a casa.

                                &&&

     A grande poltrona em que estava sentado com um rei era de veludo
extremamente acolchoado e confortvel, mas isso no era suficiente para
que pudesse deixar o chefo do narcotrfico de Melmar relaxado. Estava
com a cabea escorada no encosto de da poltrona e seus olhos estavam
vidrados no teto branco de sua sala de vdeo, onde costumava ficar seu
tempo livre, na busca de um tempo de descanso e tranqilidade.
     Mas seu imprio se encontrava agora em perigo. Como poderia
ento relaxar, ter descanso e tranqilidade? Vip apertou o brao da
poltrona encravando as unhas no veludo escuro, tentando buscar
alguma soluo rpida e prtica para todos os seus problemas, alis,
principalmente para o maior de todos no momento: Carlos Lacerda.
     Levantou-se e ps-se a andar de um lado para outro no aposento
luxuoso e confortvel, mas ao mesmo tempo obscurecido pela maldade.
Seus pensamentos flutuavam sinistramente sob uma profunda nuvem
negra de morte; morte essa que seria destinada aos seus inimigos,


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planejava ele. Foi ento que o telefone tocou, trazendo-o de volta de seu
mundo de sangue e punio.
     Ele atendeu:
     -- Quem ?
     A voz de um dos seus criados anunciou primeiro quem estava na
linha e depois perguntou se estaria disposto a receber a ligao, sempre
num tom de inferioridade.
     -- Pode passar -- disse Vip.
     Trs segundos depois, o contato estava falando ao telefone.
     -- E ento, como foi tudo? -- perguntou o poderoso chefo. --
correu conforme o combinado?
     Obteve uma resposta positiva que o fez suspirar como se estivesse
sido salvo de um grande problema.
     -- Que bom que completou todo o trabalho de acordo com o que
planejamos. Essa  uma excelente notcia para mim.
     Ouviu uma piada no muito engraada.
     -- Isso mesmo, meu caro. Amanhecer quinhentos mil mais rico...
Pode ter plena certeza disso.
     Escutou uma gargalhada contente do outro lado da linha e uma
despedida agradecida.
     -- Boa noite. Aguarde mais trabalhos.
     Desligou e voltou a sombriedade dos seus pensamentos.
     Pelo menos, at agora seu plano estava correndo perfeitamente
bem. Logo estaria completamente fora do alcance dos tiras e de quem
quer que fosse. Estaria acima da lei e de todos naquela cidade de nada.
Ele seria o deus daquela cidade e logo-logo estenderia o seu imprio por
todo o pas e logo seria conhecido em todo o mundo.
     Mas, para que isso acontecesse, teria que eliminar todos os riscos,
perigos e barreiras que existiam ou teimavam em existir para tentar
atrapalh-lo e derrub-lo. A maior dessas barreiras tinha nome e estava
solto pela cidade. Vivo, desaparecido, e portanto, longe de seu alcance.
     -- Fuja e se esconda o quanto puder, Carlos, pois logo no ter mais
buracos para se entocar. Voc cair nas minhas garras e ser o seu fim e
de todos os que com voc estiverem.

                                &&&

    Pegou o carro e decidiu dirigir para vrios quarteires longe da casa
de Fbio e Vitria. A pista estava um pouco mida e o vento soprava
contra a frente do veculo. Isso fez com que Carlos levantasse o vidro,


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pois estava arrepiado com o frio. Ligou o aquecedor dos vidros e
concentrou-se na pista. Porm, sua mente se encontrava repleta de
pensamentos a respeito de Alan e dos trs jovens, os quais o haviam
socorrido.
      Qual seria a ligao entre eles? Perguntou-se Carlos. Ser que fazem
parte de um compl contra mim? Ele suspirou. Achou que deveria estar
ficando louco. Agora, todos para ele representava uma ameaa. Vitria
no parecia representar perigo algum. Disse consigo mesmo. Ela tem muito
de Nicole. A mesma docilidade ntida no olhar enquanto transmite segurana e
confiana ao falar. No, ela no era uma ameaa. E quanto aos outros dois,
Fbio e Andrey? Poderiam ser considerados uma ameaa? Hesitou por um
momento. E Alan? O que poderia esperar dele? No mesmo instante, Carlos
caiu em si. Que droga! Como posso pensar uma coisa destas?! O homem se
jogou na minha frente para levar uma bala em meu lugar! Ele se
compenetrou. Mas que motivo ele teria para fazer isso? Ele poderia ter
morrido! Alis, ainda pode vir a morrer. Mas por que haveria de dar a vida por
mim? Isso era uma coisa que Carlos no compreendia. Ele analisou todas
as possibilidades, mas nada coerente se materializou no consciente.
Definitivamente no entendia.
      Parou diante de um semforo com o sinal vermelho. Olhou em
volta e no avistou nenhum guarda. Assim, passou a primeira marcha e
ultrapassou a luz que continuava com a cor de sangue.
      Repentinamente, veio-lhe a mente o que Alan lhe havia falado
quando estava moribundo sentado no banco ao seu lado: Jesus te ama
Carlos... Ele deu a vida por voc...
      Estacionou o carro e parou ao lado de uma loja de departamentos.
Observou e concluiu que ali j estava bem distante de onde iria ficar por
algum tempo, isto , na casa dos loucos. Ele sorriu diante da prpria
piada. Mas logo a seriedade voltou ao seu semblante quando lembrou
de Vip e Nicole. Olhou ao redor, pensando em encontrar um telefone
pblico e telefonar para Vip. Pensou por um instante. No, decidiu ele.
Achou melhor dar um tempo para pensar como fazer com que Vip
pagasse por tentar pela segunda vez mat-lo e brincar com a vida de
Nicole. Tambm decidiu descansar um pouco e tentar relaxar -- o que
seria uma coisa, ao seu ver, impossvel. Fechou os olhos e procurou ficar
sem pensar em nada por um curto espao de tempo, mas nem isso
conseguiu. Conturbava-lhe saber que Nicole estava em poder dos seus
inimigos, isto , se ainda estivesse... No! Ela tem que estar viva. Se no
estiver, no tenho mais nenhum motivo para continuar a viver essa maldita
vida.


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     Jesus te ama... Carlos... lembrou outra vez. Carlos sorriu
sarcasticamente. Quem poderia am-lo? Talvez at Nicole no olharia
mais para ele depois de passar pelo que estava passando. Ele levou a
mo ao bolso sentiu a fita k7 preenchendo o espao dentro dele. Aquela
era a nica garantia e a nica esperana de ter Nicole novamente em
seus braos. Aquele seria seu passaporte para a vida ou para a morte. A
vida seria Nicole em seus braos; a morte seria ir ao encalo de Vip por
t-la assassinado, ser pego pelos homens da quadrilha ou por um
policial que certamente estaria com Vip.
     Eu sei o segredo que contm na fita, Carlos... seus pensamentos
imediatamente voltaram-se novamente para as palavras de Alan. At o
quanto sabia sobre tudo o que estava acontecendo com ele?
-- De um jeito ou de outro descobrirei -- prometeu a si mesmo.




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                                            Transformao - Naasom A. Sousa




          Sobre o Autor e suas Obras
                          Naasom A. Sousa nasceu no dia 7 de janeiro
                      de 1978 na capital cearense, Fortaleza. Aos 13
                      anos mudou-se para Belm do Par e logo aps
                      para Ananindeua, no mesmo estado. Foi ali que
                      se encontrou verdadeiramente com o Cristo
                      Salvador e se interessou pela leitura depois de ler
                      "Este Mundo Tenebroso II" de Frank E. Peretti.
                      Da ento passou a escrever romances. Tambm
                      se tornou cantor e compositor, e se apresenta
                      apenas em templos evanglicos (por enquanto).

                          Atualmente, Naasom A. Sousa est casado
                      com Ivone Sousa e mora em Paragominas,
municpio  300km da capital paraense. Seu e-mail para contato 
letrassantas@ieg.com.br / naasom@bol.com.br e seu site na rede :
www.letrassantas.hpg.com.br


    Outras obras publicadas:

     "Do Deserto ao Osis"  uma novela que foi inspirada nas tantas
dificuldades e tribulaes que enfrentamos no dia-a-dia e que muitas
vezes pensamos que vamos perecer. Porm, por mais que pensemos que
estamos desamparados pelo Criador, Ele sempre tem um jeito de
provar-nos o contrrio.

"O Amor da Minha Vida"  uma nova roupagem de sua novela
romntica escrita em meados de 1996, e este tambm  seu primeiro
trabalho integral distribudo pela Internet.




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